Reportagem: Cegos criam site inédito no Brasil


DIÁRIO DO SUDOESTE
16 de agosto de 2011

Mundo Acessível na rede:

Determinação e coragem para mostrar que não há obstáculos impossíveis de transpor.

Um casal de cegos, um bebê, um objetivo. Há histórias que parecem se desenhar para provar que o que se vê é uma parcela pequena da realidade. Para se enxergar mais
longe, às vezes, nem é preciso dos olhos.

A casa de madeira, com as paredes pintadas de laranja, localizada no bairro São Cristóvão, esconde em seu formato retangular uma história de persistência e
superação. Na residência vivem Rafael Celestrin, 21 anos, a esposa Patrícia, 21, e o filho do casal, de 40 dias, Hérick. A mãe, embora receba a quem chega com o filho nos braços, nunca viu o rosto do bebê.
Tanto ela, como o marido são cegos desde a infância. Já Hérick, embora tivesse 90% de chance de nascer com problema de visão devido a uma
tendência hereditária, vê perfeitamente, de acordo com os primeiros exames. As vitórias particulares são apenas uma das facetas desta família especial. O casal,
juntamente com um amigo que também é deficiente visual, é o criador do site Mundo Acessível.

Desde fevereiro no ar, a página na internet, desenvolvida e alimentada pelo grupo, tem como conceito permitir a navegação ágil de pessoas cegas ou com baixa visão. Atualmente, o acervo disponível já conta com 415 filmes em áudio, dos quais 33 áudio-descritos. A ideia é simples: pessoas cegas não precisam da imagem
para acompanhar um filme e disponibilizando apenas o áudio, os arquivos tornam-se bem menores, fáceis de baixar pela internet. Além dos filmes, estão disponíveis
50 séries, 10 animes, 10 desenhos, 15 seriados, oito documentários e três tokusatsu (gênero que integra filmes ou séries de super-heróis produzidos no Japão).

Rafael conta que no Brasil não existem outros sites com essa proposta. "Existem alguns blogs, sites que têm algum conteúdo, mas não uma página que reúna todas
essas informações da maneira como estamos fazendo, acessível a todos", explica. Agora, a intenção é ainda mais ousada, Rafael e o amigo Gabriel Schuck, que mora
no Rio Grande do Sul, trabalham na programação de uma rede social, que pretendem lançar até o final do ano dentro do site. "A intenção é unir os princípios do Facebook,
do Orkut e do Youtube em um formato fácil de usar pelos deficientes visuais", explica Rafael.

Ouvidos na rede:

Para quem enxerga é difícil imaginar como é possível que pessoas cegas naveguem na rede internacional de computadores. Nesse caso, a tecnologia dá uma mãozinha. O casal, a exemplo
de outros deficientes visuais, utiliza um programa especial que faz a leitura da tela, o qual permite que eles saibam o que estão fazendo por meio do áudio. É como
se eles ouvissem a rede.

Nos seis meses em que está no ar, o site já contabiliza mais de 43 mil acessos. "Temos uma média de 250 acessos por dia de segunda a sexta. Nos finais de semana
chegamos a uma média de acesso que varia de 350 a 400", conta Rafael. A divulgação é basicamente realizada por meio do Twitter e de grupos de discussão formados
na internet. Todos os sábados o site é atualizado e as novidades são informadas aos contatos.

Interatividade:

No site também há ferramentas para que os inter- nautas solicitem materiais. "Se a pessoa não encontrou o áudio do filme que procurava, pode enviar um e-mail
solicitando", explica Patrícia. A iniciativa é tão diferenciada que já provocou a mobilização de pessoas de diferentes partes do país. "Hoje temos um grupo de cerca
de 15 colaboradores que enviam conteúdo periodicamente para que seja postado no site", afirma.

Questionados sobre a possibilidade de tornar a página um negócio, ambos dizem que no momento não há essa ambição. Para conseguir transformar o projeto em realidade,
os únicos apoios recebidos foram do proprietário do servidor e de uma rádio web. Fora isso, o resto se resume a trabalho e dedicação.

Jornada dupla:

Trabalho e dedicação em doses generosas nesse momento, diga-se de passagem, já que a família ganhou
mais um integrante, o pequeno Hérick. Embora a avó esteja por
perto, já que mora a poucos metros, Patrícia cuida do bebê sozinha. "Eu dou banho, troco fralda... Como para toda mãe, esse começo é um aprendizado", revela. Ela
afirma que gostaria muito de poder ver o rosto do filho, mas é fácil compreender que o que os olhos não podem mostrar aos dois, eles conseguem perfeitamente perceber
com os outros sentidos.

"Para nós é uma coisa natural, acho que esse é o bebê mais apalpado do mundo", brinca Rafael. Com certeza a família vive
experiências que ninguém que enxerga é capaz de experimentar. "A gente acaba aguçando os outros sentidos, é difícil descrever como isso acontece, mas é assim", diz
Patrícia, que divide seu tempo entre trocas de fraldas, mamadas, serviços domésticos e pesquisas para o site que ajuda a atualizar. "Tem o cantinho da mulher onde 'posto'
artigos destinados a esse público", conta.

O preconceito só se desfaz quando as pessoas que o sofrem se desafiam a mostrar que são muito mais do que esse conceito pré- estabelecido.

Uma comunidade que abre os olhos:

Mais do que as conquistas pessoais, a história de vida de Patrícia e Rafael faz com que as pessoas à sua volta abram os olhos para a capacidade dos deficientes
físicos. No final do ano passado, a reportagem do Diário entrevistou o casal pela primeira vez. Na época, a conversa teve um tom de desabafo e de pedido para que a sociedade
passasse a notá- los como pessoas capazes. "Nós apenas queremos ter o direito de trabalhar e de mostrarmos nossas capacidades, não queremos esmola'; disse a jovem
na época.

Agora, cerca de nove meses depois, a família já vive uma realidade diferente. Rafael, que tem magistério, curso profissionalizante em Montagem e Manutenção de Computadores e cursa Análise e Desenvolvimento de Sistemas, foi aprovado em um concurso público e se tornou professor. Ele dá aulas de informática, tanto para
alunos que enxergam, como para alunos cegos, na Escola Municipal Rocha Pombo. "No começo, as pessoas estranhavam um professor cego, mas agora já percebem que é possível.
É assim, quebrar esses tabus é um processo", diz Rafael, consciente de que o preconceito só se desfaz quando as pessoas que o sofrem se desafiam a mostrar que são
muito mais do que esse conceito pré-estabelecido.

Conheça mais do projeto Mundo Acessível:

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MARCIONIZE BAVARESCO PATO BRANCO

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